Cazuza: um poeta exagerado

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Era uma manhã qualquer, mais um dia comum no Rio de Janeiro. Às exatas 8h30 do dia 7 de julho de 1990 veio a notícia: ele não resistiu. O desespero e o choro tomaram conta da família Araújo e, pouco depois, do Brasil todo. Um filho amado e amigo querido por todos que o conheceram verdadeiramente. Apesar de seus diversos conflitos interiores e seu gênio forte, havia por trás do temperamento difícil uma sensibilidade e generosidade inacreditáveis. E embora houvesse o terrível envolvimento com álcool, drogas e com a polícia, havia também o Agenor amigo, carinhoso, engraçado, sempre rindo... O incontrolável Cazuza. Um homem que teve a audácia de subir no palco e cantar que viu a cara da morte, mas não teve forças para vencê-la.

"Entrei no quarto, o abracei e lhe pedi perdão por tudo o que eu fiz de errado, por toda a incompreensão, pela impaciência, por amar demais, por ter demorado a entendê-lo. Em voz alta, como se assim ele pudesse me escutar melhor." (Lucinha, mãe de Cazuza, após a morte do filho).

"Meu último contato com Cazuza, no fim de sua vida, parecia se ligar irremediavelmente àquele momento que mudou nosso destino. Foi como uma ligação telepática, espiritual. Naquela intensa troca de olhares, me despedi de meu filho para sempre." (João Araújo, pai de Cazuza, ao se despedir do filho).

Quando a família divulgou a notícia à imprensa, o Brasil ficou perplexo. E Cazuza, que um dia antes de sua morte havia pedido para assistir a um show da Legião Urbana, recebeu uma linda homenagem do vocalista da banda e grande amigo, Renato Russo, que dedicou o show a ele. Nesse dia, Renato se apresentou segurando uma rosa branca e cantou uma música de Cazuza.

"Boa noite Rio de Janeiro! Eu quero falar algumas coisas aqui, eu vou falar de mim. Eu tenho mais ou menos 30 anos, eu sou do signo de Áries, eu nasci no Rio de Janeiro. Eu gosto da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Eu gosto de beber pra caramba, de vez em quando. Também gosto de milk-shake. Eu gosto de meninas, mas eu também gosto de meninos. Todo mundo diz que eu sou meio louco. Eu sou um cantor numa banda de rock 'n roll. Eu sou letrista, e algumas pessoas dizem que eu sou poeta. Agora eu vou falar de um carinha: ele tem 30 anos, ele é do signo de Áries, ele nasceu no Rio de Janeiro. Ele gosta da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Ele é meio louco, ele gosta de beber pra caramba. Ele é cantor numa banda de rock. Ele é letrista e eu digo: ele é poeta. Todo mundo da Legião gostaria de dedicar esse show ao Cazuza." (Renato Russo, no show realizado no dia da morte de Cazuza).

Agenor de Miranda Araújo Neto, ou Cazuza, sempre foi um garoto inquieto. Sempre que se interessava por algo, não demorava a mudar de ideia e procurar outras coisas para fazer. Nunca foi muito bem no colégio, frequentemente tirando notas baixas, motivo pelo qual ocorriam tantas brigas com sua mãe. Na adolescência, os conflitos aumentaram quando começou a pegar, bêbado, o carro de sua mãe escondido, indo parar na delegacia ou hospital. Ganhou o diploma do segundo grau através de um supletivo e abandonava todas as faculdades nas quais era aprovado. Também não ficava muito tempo em seus empregos. Morou nos Estados Unidos alguns meses para fazer um curso de fotografia, mas logo desistiu, retornando ao Brasil.
Por esses e tantos outros motivos, ninguém percebeu a genialidade que havia em Cazuza. Mesmo tendo crescido em um ambiente musical, a descoberta de seu talento foi uma surpresa para amigos e familiares. Foi numa peça que encenou na faculdade de teatro, onde precisava cantar, que sua voz foi ouvida pela primeira vez. Foi então que, depois de muito esforço para encontrar a carreira a ser seguida, descobriu que havia nascido para os palcos. Críticos musicais famosíssimos elogiaram Cazuza e elegeram-no como o maior poeta de sua geração.

“Eu nunca mais vou respirar se você não me notar, eu posso até morrer de fome se você não me amar. E por você eu largo tudo, vou mendigar, roubar, matar. Até nas coisas mais banais, pra mim é tudo ou nunca mais. Exagerado, jogado aos teus pés, eu sou mesmo exagerado. Adoro um amor inventado...” (Exagerado, Cazuza).

"Eu sou e sempre fui vítima do amor. Porque o amor demais prejudica, porque o amor de menos prejudica. Porque o amor é feito bebida: tem que tomar a dose certa." (Vítima do Amor, Cazuza).

O temperamento de Cazuza nunca foi fácil. Desde muito pequeno, as brigas eram constantes em casa, principalmente com a mãe. Ele, que sempre quisera ser livre e independente, não aceitava que a mãe tentasse o controlar de forma alguma, sempre fazendo o oposto do que dizia. Foi a partir desse jeito louco, imperfeito e espontâneo que surgiu o Cazuza como artista, como ídolo de milhares de pessoas, como poeta. Sua mãe:

"O que é preciso para que uma mãe aceite ter gerado um anjo rebelde? Mais, ainda, como ter a generosidade suprema de dividi-lo com o resto do mundo?"

Foi então que, no ano de 1987, Cazuza descobriu sua doença. Ele era soropositivo. Um monstro imortal habitava seu corpo e seu nome era AIDS. O cantor não resistiu aos danos causados pelo HIV, sucumbindo ao vírus em 1990, aos 32 anos de idade e com apenas 38 quilos. Hoje se completam 24 anos desde a morte de Cazuza e esse texto é uma homenagem à sua inteligência, à sua coragem e à sua alegria. Pela memória do nosso queridíssimo e eterno exagerado!

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