Cazuza: um poeta exagerado
11:00
"Entrei
no quarto, o abracei e lhe pedi perdão por tudo o que eu fiz de errado, por
toda a incompreensão, pela impaciência, por amar demais, por ter demorado a
entendê-lo. Em voz alta, como se assim ele pudesse me escutar melhor."
(Lucinha, mãe de Cazuza, após a morte do filho).
"Meu
último contato com Cazuza, no fim de sua vida, parecia se ligar irremediavelmente
àquele momento que mudou nosso destino. Foi como uma ligação telepática,
espiritual. Naquela intensa troca de olhares, me despedi de meu filho para
sempre." (João Araújo, pai de Cazuza, ao se despedir do filho).
Quando a família divulgou a
notícia à imprensa, o Brasil ficou perplexo. E Cazuza, que um dia antes de sua
morte havia pedido para assistir a um show da Legião Urbana, recebeu uma linda homenagem
do vocalista da banda e grande amigo, Renato Russo, que dedicou o show a ele.
Nesse dia, Renato se apresentou segurando uma rosa branca e cantou uma música
de Cazuza.
"Boa
noite Rio de Janeiro! Eu quero falar algumas coisas aqui, eu vou falar de mim.
Eu tenho mais ou menos 30 anos, eu sou do signo de Áries, eu nasci no Rio de
Janeiro. Eu gosto da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Eu gosto de beber pra
caramba, de vez em quando. Também gosto de milk-shake. Eu gosto de meninas, mas
eu também gosto de meninos. Todo mundo diz que eu sou meio louco. Eu sou um
cantor numa banda de rock 'n roll. Eu sou letrista, e algumas pessoas dizem que
eu sou poeta. Agora eu vou falar de um carinha: ele tem 30 anos, ele é do signo
de Áries, ele nasceu no Rio de Janeiro. Ele gosta da Billie Holiday e dos
Rolling Stones. Ele é meio louco, ele gosta de beber pra caramba. Ele é cantor
numa banda de rock. Ele é letrista e eu digo: ele é poeta. Todo mundo da Legião
gostaria de dedicar esse show ao Cazuza." (Renato Russo, no show realizado
no dia da morte de Cazuza).
Agenor de Miranda Araújo Neto, ou
Cazuza, sempre foi um garoto inquieto. Sempre que se interessava por algo, não
demorava a mudar de ideia e procurar outras coisas para fazer. Nunca foi muito
bem no colégio, frequentemente tirando notas baixas, motivo pelo qual ocorriam
tantas brigas com sua mãe. Na adolescência, os conflitos aumentaram quando
começou a pegar, bêbado, o carro de sua mãe escondido, indo parar na delegacia
ou hospital. Ganhou o diploma do segundo grau através de um supletivo e
abandonava todas as faculdades nas quais era aprovado. Também não ficava muito
tempo em seus empregos. Morou nos Estados Unidos alguns meses para fazer um
curso de fotografia, mas logo desistiu, retornando ao Brasil.
Por esses e tantos outros
motivos, ninguém percebeu a genialidade que havia em Cazuza. Mesmo tendo
crescido em um ambiente musical, a descoberta de seu talento foi uma surpresa
para amigos e familiares. Foi numa peça que encenou na faculdade de teatro,
onde precisava cantar, que sua voz foi ouvida pela primeira vez. Foi então que,
depois de muito esforço para encontrar a carreira a ser seguida, descobriu que havia nascido para os palcos. Críticos musicais famosíssimos elogiaram Cazuza e
elegeram-no como o maior poeta de sua geração.
“Eu
nunca mais vou respirar se você não me notar, eu posso até morrer de fome se
você não me amar. E por você eu largo tudo, vou mendigar, roubar, matar. Até
nas coisas mais banais, pra mim é tudo ou nunca mais. Exagerado, jogado aos
teus pés, eu sou mesmo exagerado. Adoro um amor inventado...” (Exagerado,
Cazuza).
"Eu sou e sempre fui vítima do amor. Porque o amor demais prejudica, porque o amor de menos prejudica. Porque o amor é feito bebida: tem que tomar a dose certa." (Vítima do Amor, Cazuza).
"Eu sou e sempre fui vítima do amor. Porque o amor demais prejudica, porque o amor de menos prejudica. Porque o amor é feito bebida: tem que tomar a dose certa." (Vítima do Amor, Cazuza).
O temperamento de Cazuza
nunca foi fácil. Desde muito pequeno, as brigas eram constantes em casa,
principalmente com a mãe. Ele, que sempre quisera ser livre e independente, não
aceitava que a mãe tentasse o controlar de forma alguma, sempre fazendo o
oposto do que dizia. Foi a partir desse jeito louco, imperfeito e espontâneo
que surgiu o Cazuza como artista, como ídolo de milhares de pessoas, como poeta.
Sua mãe:
"O
que é preciso para que uma mãe aceite ter gerado um anjo rebelde? Mais, ainda,
como ter a generosidade suprema de dividi-lo com o resto do mundo?"
Foi então que, no ano de
1987, Cazuza descobriu sua doença. Ele era soropositivo. Um monstro imortal
habitava seu corpo e seu nome era AIDS. O cantor não resistiu aos danos causados
pelo HIV, sucumbindo ao vírus em 1990, aos 32 anos de idade e com apenas 38
quilos. Hoje se completam 24 anos desde a morte de Cazuza e esse texto é uma
homenagem à sua inteligência, à sua coragem e à sua alegria. Pela memória do nosso
queridíssimo e eterno exagerado!

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